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Atas da Conferência Internacional "Experiências e Expectativas do Ensino de Estatística - Desafios para o Século XXI"

Florianópolis, Santa Catarina, Brasil - 20 a 23 de Setembro de 1999

Artigo selecionado e apresentado

Experiências Metodológicas no Ensino de Análise Exploratória de Dados na América Latina

Batista, Carlos M. Universidade Federal de Goiás -UFG, Goiânia, BR

Hochsztain, Esther , Universidad de la Republica, Montevideo, UY

Aguirre, Cesar N. Universidad Nacional de Misiones, Posadas, AR

Universidade Federal de Goias _ UFG

FHCS - Departamento de Ciencias Sociais / DCS

Campus II

Goiania – GO

carlosmb@fchf.ufg.br, , esthoc@adinet.com.uy, , caguirre@fhycs.unam.edu.ar

 

ABSTRACT: This paper deals with innovative experiences in teaching Exploratory Data Analysis in some university centers in Latin America. It focuses a different approach to teach and to learn statistics based on interaction among data analysis tools, software, instructors and students. The main feature presented is a course in a "one week format" where basic concepts, simple tools or advanced questions are explained in a dynamic way with the effective use of special training material and a specific software. These courses are dedicated to professionals, professors and researchers. These experiences have been approved by the participants.

KEYWORDS: data analysis, education, methodology

 

1. INTRODUÇÃO

Este trabalho refere-se a experiências inovadoras e bem sucedidas no ensino de Análise Exploratória de Dados das quais participamos diretamente tanto na organização quanto na docência. Trata-se ainda de uma reflexão pedagógica sobre como combinar teoria e prática no ensino da estatística para professores e pesquisadores. Este artigo pretende estabelecer um marco de referência para que se possa discutir objetivos, conteúdos, critérios e métodos que devem ser empregados no ensino da Análise Exploratória de Dados - EDA. Os eventos cobertos neste texto foram realizados entre 1994 e 1999. O marco inicial destas experiências foi o "Primer Seminario de Formacion de Formadores", promoção PRESTA, em Cochabamba, 1994, em cuja programação foi incluído um módulo de Análise Exploratória de Dados-EDA sob a responsabilidade dos professores Eugène Horber da Universidade de Genebra e Dominique Ladiray do INSEE, Paris.

Constituem objeto de nosso estudo os Seminários Temáticos de Análise Exploratória de Dados realizados nas cidades de Goiânia (Universidade Federal de Goiás), Florianópolis (Universidade Federal de Santa Catarina), Formosa (Universidad Nacional de Formosa), Salta (Universidad Nacional de Salta), Mendoza (Universidad Nacional de Cuyo) e Bogotá (Universidad Nacional de Colombia).

2. CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES

Os cursos de iniciação à estatística são, em geral, de base probabilística. Reunem-se estudantes de graduação ou pós-graduação, muitas vezes de diferentes áreas e a eles se apresenta a idéia de probabilidade, cujos exemplos correntes são sempre jogos. A partir daí, desenvolve-se uma teoria cuja hipótese fundamental é que todas as variáveis sob estudo são manifestações de uma variável aleatória e portanto o problema estatístico fundamental é a estimação de parâmetros para funções. O pressuposto dominante é que o estudante deva aprender estatística como um ramo da matemática no qual a probabilidade é a ferramenta básica. Aos estudantes são apresentadas algumas distribuições de probabilidade e são conduzidos à tentativa de compreensão de alguns princípios de inferência estatística. No entanto, o que ocorre é uma mecanização da compreensão estatística, uma ausência de senso crítico e pensar estatístico e a incompreensão da estatística como método científico ou como instrumento de trabalho científico. Mais grave ainda é o fato de os estudantes apreenderem apenas o viés algébrico da estatística e perderem inteiramente de vista as suas inúmeras possibilidades de aplicação. Assim, os estudantes adquirem uma visão isolada da estatística e não são capazes de utilizá-la como instrumento para auxiliá-los tanto em seu raciocínio científico quanto em suas pesquisas correntes ou futuras.

Tem sido muito comum encontrarmos estudantes de excelente nível de mestrado ou doutorado que já tiveram pelo menos um ou dois semestres de estatística na graduação e que sabem da necessidade da utilização da estatística para a realização de seu trabalho de pesquisa, mas que não sabem delinear seus experimentos, não sabem definir claramente suas hipóteses, não sabem como produzir seus dados e evidentemente não sabem como tratá-los.

Assim, geram-se muitos pesquisadores, herdeiros desta tradição "mecanicista" na estatística que conhecem algumas técnicas básicas ou avançadas e as aplicam de maneira mais ou menos automática sobre seus dados, alcançando alguns resultados sobre os quais, no mínimo, se poderia dizer, que o nível de segurança é muito baixo. No outro extremo, também encontramos aqueles que em modesta atitude perguntam sempre como tratar ou o que fazer com seus dados, inclusive em alguns casos obtidos de maneira pouco rigorosa.

Portanto, torna-se evidente a necessidade de uma reeducação para a estatística, de se apresentar novos instrumentos de trabalho e de se apresentar ou descobrir novas técnicas simples e de aplicação imediata para que o pesquisador usuário possa obter resultados rápidos, utilizando inclusive técnicas visuais ou exploração gráfica: "uma imagem vale mais que mil palavras". Uma abordagem inovadora deve garantir a interação entre a metodologia e o pesquisador de modo que ele possa ter completo domínio sobre seus dados.

A feliz expressão Análise Exploratória de Dados nos isenta da obrigatoriedade de utilização de um grande número de pressupostos da estatística clássica e a frase de Tukey "look at the data and think about what you are doing" pode ser entendida como o manto unificador desta abordagem. As técnicas de análise exploratória nos ajudam a lidar, de maneira bem sucedida e amena com um conjunto de dados e nos conduz à descoberta de estruturas de maneira relativamente rápida e fácil.

3. IMPORTÂNCIA DO TEMA

Diversas instituições de ensino têm introduzido cursos regulares de EDA nos seus currículos de graduação e pós- graduação. O ensino da análise exploratória é recente. A análise de dados, derivada dos trabalhos de Tukey, tem como ponto de partida a não utilização sistemática dos princípios da teoria probabilística e portanto se opõe de certa forma a um programa forte na estatística. A filosofia exploratória é "detective work" na expressão de Tukey. Acoplada a um software adequado temos então uma metodologia potente para o ensino da estatística.

Uma formação convencional em estatística-matemática demandaria pelo menos 2 ou 3 anos de formação contínua para permitir a um pesquisador obter seus primeiros resultados. Não é possível pretender que um pesquisador, envolvido com as questões próprias de sua ciência, vá dedicar 4 ou 5 semestres consecutivos da sua vida ao aprendizado específico de estatística para estar então aparelhado para a sua utilização.

Assim, ensinar técnicas de fácil aprendizagem e de fácil manejo, com o auxílio de um aparato computacional eficiente que permita ao pesquisador vislumbrar resultados analíticos simples, mas potentes, é uma justificativa mais que relevante para a realização dos seminários EDA.

4. ESTRUTURA E OBJETIVOS DOS SEMINÁRIOS

A ótica dos Seminários tem sido a exploração. A proposta é criar uma mentalidade exploradora. No fundo a proposta tem sido criar um curso de introdução à estatística por meio do qual se iniciem os profissionais participantes no conhecimento da estatística sem necessidade de muitas hipóteses restritivas que nem sempre se verificam. Com o auxílio de um software os estudantes tomam contato com um instrumental fácil, acessível, e que pode ser adotado para suas pesquisas imediatamente. A estratégia adotada está baseada na modalidade seminário com uma semana de duração.

Um curso de EDA é essencialmente dinâmico. Trata-se de um curso interativo. Os estudantes devem sentir-se à vontade para propor suas dúvidas, inquietudes e dificuldades. Devem fazer perguntas, devem interagir bem com os computadores e com o software. Os professores, mesmo seguindo um plano de trabalho previamente estabelecido, devem ser flexíveis o bastante para se adaptarem a diferentes questões surgidas e às ansiedades naturais daqueles que aprendem um tema novo.

O material didático adotado nos cursos é composto de três módulos apresentados em três documentos: 1-Apresentação da metodologia da análise exploratória de dados (documento para utilização dos instrutores) 2 - um pacote de transparências com cópias para os participantes 3 - Manual do software (EDA) com cópia para os estudantes. Este mesmo material foi utilizado em Florianópolis, Formosa, Salta, Mendoza e Bogotá.

O material pedagógico constitui-se em uma coleção de textos de orientação didática cujo objetivo é fornecer diretrizes para o ensino da "exploração". Há "unidades pedagógicas" contendo os temas, bibliografia, exemplos, notas técnicas tanto em informática quanto em estatística, notas sobre os conjuntos de dados e as suas possibilidades pedagógicas, sugestões para os exercícios práticos e recomendações.

A apresentação dos seminários tem se mantido num formato livre mas utiliza-se sempre um conjunto de transparências que tem servido de guia para as apresentações teóricas. Agregamos ainda transparências complementares, preparamos transparências durante os cursos e acrescentamos temas suplementares ou pequenas variantes de acordo com o seminário ou com a clientela. Usamos como meio de comunicação o canhão de projeção, o quadro e o retroprojetor. As transparências são apenas um reflexo do conceito do curso que está essencialmente fundamentado na filosofia exploratória. Assim, partimos de alguns pressupostos importantes:

5. ESTUDOS DE CASO: OS SEMINÁRIOS TEMÁTICOS DE ANÁLISE EXPLORATÓRIA

5.1. SEMINÁRIO TEMÁTICO NA UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS

O Seminário Temático sobre Análise Exploratória de Dados realizou-se na Universidade Federal de Goiás em Goiânia, entre 30 de setembro e 4 de outubro de 1996, sob a coordenação local dos professores Carlos Marcos Batista e José Carlos Seraphin. O seminário esteve sob a responsabilidade e apresentação dos professores Eugène Horber e Dominique Ladiray.

O conteúdo programático contemplou os seguintes tópicos: introdução à filosofia da exploração; ferramentas descritivas, uni, bi, multivariadas; estudo exploratório das relações entre variáveis; suavização de séries e de tabelas; ferramentas de diagnóstico; visualização multidimensional; elementos de robustez; introdução ao uso de softwares e de exploração. No entanto, durante o desenrolar do curso diversos temas foram abordados atendendo a perguntas específicas ou a assuntos que espontaneamente surgiram durante as aulas. Um tema exaustivamente tratado foi a bibliografia disponível, onde o Prof. Horber discorreu sobre a diversidade do material existente e os diferentes graus de dificuldade das suas abordagens. O procedimento didático adotado foi sempre aulas teóricas pela manhã e blocos de trabalhos práticos às tardes.

O seminário contou com a participação dos seguintes profissionais, todos professores ou pesquisadores da UFG: médico (1), biólogo (3), matemático (2), agrônomo (2), químico (3), estatístico (2), economista (1)

A organização do evento permitiu que cinco estudantes de graduação em ciências sociais acompanhassem o seminário para avaliar as possibilidades de compreensão do curso para estudantes desse nível. Todos os cinco executaram todos os trabalhos práticos que lhes foram propostos e o grau de aproveitamento foi da ordem de 70 a 80%.

Os formulários de avaliação do curso apontaram resultados estimulantes. Em uma escala de zero (muito ruim) a quatro (muito bom), entre 14 participantes formalmente inscritos, 11 responderam a pergunta "Como qualifica a metodologia ?" com a pontuação 4, e 3 com a pontuação 3 (bom). Os ítens "Recomenda este curso para seus colegas ?" e "O curso satisfez suas expectativas ?" tiveram 90% de pontuação 4, entre as 14 respostas.

Em uma avaliação aberta realizada no último dia, por meio de opiniões pessoais espontâneas, os participantes apontaram para os seguintes pontos: necessidade de maior tempo para os blocos de trabalhos práticos; necessidade de material escrito mais desenvolvido ou uma bibliografia mais extensa; necessidade de continuação da discussão do tema através de mini-seminários, palestras, conferências, ou ainda formação de grupos de estudo.

Foram apontadas ainda a excelência das apresentações, as qualidades da organização, mas sobretudo o caráter inovador do tema e sua facilidade de compreensão. Mas o principal saldo positivo apresentado foi o caráter dinâmico do curso, a elevada interação entre professores e participantes e a capacidade de apreensão instantânea do material teórico apresentado quando se passava para os exercícios práticos na sala de computação. Todas estas considerações apontam para a boa recepção que o curso teve e na avaliação fica claro que os participantes sugerem a continuidade do treinamento recebido.

5.2. SEMINÁRIO TEMÁTICO NA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA : FORMAÇÃO PEDAGÓGICA DE INSTRUTORES

A Universidade Federal de Santa Catarina em Florianópolis promoveu o Seminário Temático EDA entre 24 e 28 de novembro de 1997. Este evento foi uma experiência peculiar pois foi a primeira experiência de ensino EDA promovida pelo Programa PRESTA, realizada por docentes latino-americanos sob a supervisão dos professores Horber e Ladiray que tradicionalmente haviam apresentado estes seminários.

O seminário de Florianópolis contou com os docentes Carlos Batista (UFG, Goiânia), Cesar Aguirre (UNAM, Posadas), Denise Duarte Scarpa (UFG, Goiânia), Esther Hochsztain (UdelaR, Montevideo), Luz Marina Flores (UNA, Assunção), Omar Barriga, (Universidad de Concepción).

Um dos nossos grandes desafios era saber que nosso público na UFSC era composto por professores universitários provenientes de diversas áreas (matemática, estatística, informática, biologia, engenharia, humanidades) com diferentes graus de formação em estatística, mas em geral todos desenvolvendo atividades de ensino e de pesquisa ou fazendo aplicações quantitativas em seus trabalhos. A principal característica deste grupo (mais tarde em outros seminários iríamos verificar que esta é uma atitude típica) era por um lado, uma espécie de curiosidade sobre o que seria EDA e por outro, uma esperança de que apresentássemos algumas técnicas simples, fáceis de aprender, com poderes mágicos para resolução de seus problemas, mas ao mesmo tempo, potentes, rigorosas, precisas e ainda envoltas na aura da mistificação matemática. Sabíamos de antemão que estas expectativas eram inatingíveis, impossíveis de serem cumpridas e sobretudo incompatíveis com a proposta de ensino do seminário.

Para enfrentar este quadro o Seminário Temático sobre EDA em Santa Catarina foi precedido por uma discussão metodológica e pedagógica que começou com uma reunião de trabalho preparatória com duração de quatro dias (18 a 21 de novembro de 1997). A proposta era que os docentes latino-americanos se apropriassem das tecnologias pedagógicas e estabelecessem uma base de conhecimentos local e uma equipe local integrada para a difusão dos conhecimentos EDA nas universidades sul americanas. As tarefas consistiram em uma discussão sobre os temas, a preparação dos exemplos, dos trabalhos práticos e a divisão das atividades por grupos. A discussão conduziu à proposta de estrutura com aulas expositivas ou teóricas pela manhã e trabalhos práticos à tarde. A estrutura proposta em reunião conjunta, docentes europeus e docentes latino-americanos, foi a seguinte: procedimentos iniciais de apresentação de participantes e docentes para o estabelecimento de cordialidade e sensibilização para o assunto; definição de EDA, filosofia exploratória, ferramentas de base, re-expressão, listas codificadas, regressão, linha resistente, diagnóstico da regressão, resíduos, curva TRASH, suavização de tabelas, suavização de séries temporais, LOWESS, fundamentos de estatística moderna, idéias multivariadas, gráficos, softwares gráficos e de exploração, avaliação. Estes conteúdos foram utilizados nos seminários subsequentes.

O bloco de trabalhos práticos sempre constituiu-se numa "experiência de exploração estruturada do software EDA" onde os estudantes poderiam examinar livremente as possibilidades do pacote, mas sobretudo verificar os resultados que ele poderia gerar e quais as possibilidades de sua interpretação. No entanto, havia uma preocupação, desde Cochabamba, de não se permitir que um seminário EDA se transformasse num curso de software EDA.

A partir da experiência de Florianópolis foram introduzidas no seminário temático de Formosa, Argentina, e nos subsequentes nos quais trabalhamos, algumas modificações importantes em termos de procedimentos pedagógicos. Sobretudo a partir da constatação da possível dissociação entre aspectos teóricos e práticos passou-se a intercalar apresentações teóricas e exercícios computacionais.

5.3. SEMINÁRIO TEMÁTICO NA UNIVERSIDADE NACIONAL DE SALTA

A Universidade Nacional de Salta acolheu o Seminário Temático sobre Análise Exploratória de Dados, entre os dias 8 e 12 de março de 1999. A equipe docente era composta por Carlos BATISTA, Esther HOCHSZTAIN, César N. AGUIRRE. Participaram 34 docentes e pesquisadores provenientes de universidades argentinas e de organismos públicos

Os objetivos pedagógicos do seminário foram compatíveis com os de Florianópolis e são resumidamente: apresentação da filosofia exploratória, ferramentas exploratórias, estabelecimento de vínculos entre conhecimentos teóricos e problemas concretos, utilização do software EDA.

O desenvolvimento do programa de ensino se deu em cinco dias com oito horas de trabalho diário. Os temas específicos tratados envolveram filosofía EDA, ferramentas básicas, exploração gráfica, listas numéricas, re-expressão, codificação/listas codificadas, relações, linha resistente, transformações, suavização de séries, LOWESS, QQPLOT (Quantile-Quantile plot), introdução a grupos.

Quanto ao perfil profissional dos participantes predominaram os formados em ciências naturais (biologia, zoologia, recursos naturais). Outras áreas representadas: química, estatística, enfermagem, matemática, física, administração, agronomia, nutrição e engenharia industrial.

Como decorrência dos excelentes resultados obtidos em Formosa, repetiu-se a estratégia pedagógica de alternar a exposição teórica com a imediata apresentação prática da ferramenta estatística com um exercício no computador. Ao final de cada tema seguia-se um bloco de exercícios síntese fixando as ferramentas aprendidas naquele dia.

Deve-se ressaltar os seguintes aspectos quanto à qualidade da metodologia adotada: facilita a aprendizagem, aprofunda o exame dos temas, vincula as ferramentas aos problemas concretos do trabalho de cada um e mantém, em alto nível, a motivação e a dinâmica dos participantes. Novamente os resultados foram altamente satisfatórios. Uma possível prova é que não houve nenhuma desistência durante o seminário e as atividades se iniciavam sempre nos horários previstos e com a presença de todos os participantes.

A pedido da organização do evento e de alguns participantes, nas duas últimas horas da última jornada, efetuou-se um exame final de caráter optativo ao qual compareceram 32 dos 34 inscritos. (Os dois casos de não comparecimento deveram-se a problemas de horários para a viagem de regresso a seus domicílios). Por meio deste exame avaliamos o nível de conhecimentos adquiridos sobre os tópicos tratados durante a semana, a capacidade de aplicar estes conhecimentos a problemas simulados e a capacidade de resolver problemas utilizando o software adotado. Os 32 participantes que aceitaram se submeter a essa prova passaram satisfatoriamente.

A partir de uma leitura cuidadosa dos comentários dos participantes, obtidos pelos questionários de avaliação, resumimos os resultados mais freqüentes. A avaliação é sempre positiva quanto aos conteúdos, extensão e profundidade dos temas tratados, duração do curso e atendimento das expectativas. Porém, é demandado maior aprofundamento de temas específicos e solicita-se mais exercícios práticos. Afirma-se correntemente que os conteúdos estão atualizados, ressalta-se a simplicidade do uso da análise exploratória de dados e a grande novidade da sua abordagem. Quanto ao material didático diz-se que é adequado ao nível introdutório, sem densidade excessiva, contém palavras-chave e é de fácil leitura. Houve referências a um "esforço por atender satisfatoriamente os interesses de uma platéia heterogênea, apenas com conhecimentos estatísticos básicos". Os comentários mais recorrentes foram: "boa oportunidade para interagir com profissionais de outras áreas e atualizar conhecimentos" e também "recomendar el curso a otros colegas, debido a las dificultades que éstos tienen para abordar temas estadísticos en trabajos de investigación". Finalmente, julgamos importante a frequente afirmação: "poder trabajar con nuestras propias observaciones en talleres prácticos guiados".

5.4. SEMINÁRIO TEMÁTICO NA UNIVERSIDAD NACIONAL DE CUYO

A Universidade Nacional de Cuyo, Mendoza, abrigou o Seminário Temático sobre Análise Exploratória de Dados entre os dias 17 e 21 de maio de 1999. A equipe docente foi constituída por Carlos Marcos Batista, Esther Hochsztain e Raúl Ramírez. Os objetivos pedagógicos deste seminário foram : apresentar aos participantes a filosofia e o conceito de exploração de dados quantitativos, apresentar as ferramentas exploratórias de uso mais freqüente fazendo sua aplicação sobre problemas concretos e familiarizar os participantes com o software EDA.

Aqui também o programa de ensino durou cinco dias com oito horas de trabalho diário. Foram desenvolvidos os seguintes temas: filosofia exploratória, ferramentas de base, exploração gráfica, re-expressão, codificação e transformações, QQPlot (Quantile-Quantile Plot), linha resistente, suavização de séries, suavização de tabelas, análise de grupos e manipulação de dados para o pacote EDA. Para o bloco de trabalhos práticos foi quase sempre utilizado o mesmo conjunto de dados (AMLAT - dados sobre América Latina residente em EDA), à exceção de alguns temas, como suavização de séries e tabelas, para os quais os dados não eram apropriados.

A metodologia de trabalho não foi teórico-prática pela impossibilidade dos organizadores de providenciar uma sala de computação para os alunos no período da manhã. Como consequência voltou-se ao esquema aulas teóricas pela manhã, práticas à tarde. No final do dia os estudantes realizavam os exercícios-síntese.

O constante interesse dos participantes ficou patente pois, aqui também, não houve nenhuma deserção durante o seminário e as atividades se iniciavam sempre nos horários previstos e com a presença de todos os participantes. No último dia, oito grupos de estudantes apresentaram seus trabalhos profissionais. Esta atividade foi muito interessante e estimulante e favoreceu sobremaneira o intercâmbio entre os integrantes do grupo e propiciou ainda a realização de comentários, perguntas e sugestões acerca da metodologia estatística empregada. A diversidade de formação dos participantes favoreceu a discussão e o intercâmbio acadêmicos.

Um sumário das opiniões contidas na avaliação final do curso exprime bem a satisfação dos participantes. Seguem-se alguns exemplos. _______"Adquiri novas interrogações sobre o tratamento de dados. Aprendi não somente uma metodologia, mas também a razão de ser da mesma.." ________ "Aprendi que posso utilizar uma nova ferramenta de trabalho que pensava não atender às minhas necessidades." ______ "A intensidade do curso faz com que as pessoas se comprometam e que se viva profundamente estes temas durante uma semana.." _____ "Acho que conto com novas ferramentas para o tratamento de dados e que me foram dadas as bases necessárias para aprofundar os temas, assim como os meios necessários: material didático, vínculos com professores e colegas."_____ "Realmente é um ambiente de cordialidade. Os seminários propiciaram e incentivaram o espírito de pesquisa. Descobri uma boa ferramenta para a pesquisa em ciências humanas e sociais". _______ "Os contéudos são muito bons, tanto em qualidade quanto em quantidade. Foram apresentados de maneira relativamente simples." ______ "Pensei que o curso seria mais difícil. Superou minhas expectativas." _______ "Este curso me ajudou muito a aclarar conceitos, a ver outras formas de analisar dados e a obter informação útil."

5.5. SEMINÁRIO TEMÁTICO NA UNIVERSIADAD NACIONAL DE COLOMBIA

A Universidade Nacional de Colômbia, em sua sede Bogotá, abrigou o Seminário Temático sobre Análise Exploratória de Dados entre os dias 26 e 30 de julho de 1999. A docência esteve a cargo de Annie Morin e Esther Hochsztain. Aqui também as atividades duraram cinco dias, com oito horas de trabalho diário.

Seus objetivos pedagógicos, seguindo as diretrizes anteriores foram a filosofia exploratória, as ferramentas básicas de exploração, a sua aplicação a problemas concretos e a familiarização dos participantes com o software EDA. O programa do curso foi mesmo adotado tanto em Salta quanto em Mendoza. Para o bloco de trabalhos práticos também foi utilizado conjunto de dados "AMLAT". Esta base permitia aos estudantes descobrir que mesmo com quadros de dimensões relativamente reduzidas é possível realizar um vasto exercício de exploração e ainda constatar que há sempre algo mais a descobrir.

A organização do trabalho foi teórico-prática. Apresentavam-se os conceitos fundamentais sobre um tema com o uso de transparências e imediatamente passava-se a exemplificar os conceitos com o software EDA. Mostravam-se os comandos básicos e os participantes os executavam em seus computadores.

Em Bogotá, o perfil profissional dos participantes foi mais homogêneo. Quase metade deles eram estatísticos e 36 % dos presentes haviam participado dos "Seminarios de Formación de Docentes –PRESTA". Inclusive, muitos deles já haviam assistido a um módulo de análise exploratória de dados. Neste caso, o interesse dos participantes resultou ser bastante diferente daquele manifestado em outros seminários. Possivelmente por sua formação específica muitos deles se mostravam mais interessados em questões técnicas e metodológicas que nas aplicações propriamente ditas.

Neste seminário também não houve desistências, as atividades se iniciavam sempre nos horários previstos e com a presença de todos.

As opiniões expressas ao final do curso são elucidativas, como mostram as seguintes frases: "Una presentación integral que permite identificar el curso como una nueva forma de hacer estadística" ou então, "El curso fue muy bueno por lo innovador de las técnicas y por su aplicación en mis investigaciones".

6. CONCLUSÃO

Os seminários têm mostrado que todos podem aprender estatística. Com rendimento maior ou menor, dependendo da formação e da disponibilidade de cada um, todos levaram consigo uma experiência de aprendizagem onde o mais importante é saber que a análise de dados é possível como empreendimento pessoal. A aprendizagem do tratamento de dados é acessível ao pesquisador e não se requer necessariamente a ajuda de um especialista para a continuidade dos trabalhos.

Observamos em Goiânia, Florianópolis, Salta e Mendoza, uma espécie de descrença ou espanto inicial dos participantes quanto à metodologia adotada pois não começamos ou apresentamos nossos cursos nos moldes tradicionais: uma explanação de uma teoria complexa, demonstrações sofisticadas, exercícios difíceis de resolver e sobretudo um curso centrado na figura do professor e não na do aluno. Ao contrário, apresentamos noções simples, conceitos compreensíveis, resultados computacionais seguros e, sobretudo, o prazer da descoberta. Assim, após dois dias de trabalho os estudantes começam a compreender a mudança de atitude em relação aos procedimentos pedagógicos e as possibilidades de apropriação, por eles mesmos, de um instrumental analítico simples e com inúmeras possibilidades de aplicação. Entendem também que existe a possibilidade de aprofundamento matemático e de encaminhamento para a sofisticação, caso se deseje. Muitas idéias fundamentais apresentadas de uma maneira simples como aquelas de resistência, robusteza, transformações, relações entre variáveis, podem ser desenvolvidas até atingirem elevado grau de sofisticação, precisão e rigor matemático.

Uma das dificuldades nos seminários é a incompreensão de uma parcela dos participantes do que é a exploração no processo estatístico. O desafio tem sido contextualizar a EDA, expor seus pressupostos, esclarecer que se trata de um "novo olhar" sobre os dados que não exclui conhecimentos clássicos mas que pretende obter resultados e conclusões sobre um lote de dados com um novo ponto de vista.

Os alunos seguem ou acompanham o curso sem grandes dificuldades. Considerando-se que os requisitos em matemática nos seminários EDA são reduzidos aumentam-se bastante as chances de estudantes de diversas áreas acompanharem os cursos sem grandes dificuldades. Considerando-se também que os pré-requisitos em estatística também são pequenos, em geral não existe nenhum problema ou dificuldade para que os estudantes sigam ou acompanhem bem os cursos. Em decorrência, a taxa de desistência dos cursos tem sido zero ou muito baixa.

Em geral a participação dos estudantes nos seminários tem sido alta. Os alunos perguntam, fazem intervenções, questionam o material, solicitam a presença dos instrutores durante as aulas práticas, trabalham em grupo , interagem entre si, trabalham além dos horários formalmente estabelecidos A interação entre instrutores e participantes nos cursos EDA tem sido marcada pela informalidade e pela cordialidade. Isto garante o aspecto dinâmico dos cursos e permite que os participantes falem de seus trabalhos pessoais, solicitem auxílio ou opiniões sobre seus projetos ou peçam sugestões sobre seus dados. Assim tem se estabelecido vínculos profissionais e tem se difundido a idéia de cooperação entre universidades latino-americanas.

A seleção dos participantes é muito importante para o funcionamento dos seminários. Apenas aqueles que realmente trabalham com dados podem entender o valor da análise exploratória e usufruir dela. Por conseguinte, mais que a estatísticos teóricos ou a matemáticos, os seminários estão orientados para aqueles interessados nas aplicações da estatística e muito particularmente para os profissionais das várias disciplinas que necessitam de um instrumental quantitativo acessível.

O processo de combinação de aspectos teóricos e práticos, trabalhando simultaneamente o material pedagógico e os computadores, tem sido fator de sucesso nos cursos apresentados. Os exercícios livres de exploração têm sido também um componente fundamental no processo de descoberta dos novos instrumentos. Os exercícios de síntese têm se mostrado também muito eficazes. O software EDA, cuja versão disponível está em DOS, acaba sendo pouco amigável para participantes acostumados a trabalhar em ambiente Windows. Mas este pacote apresenta tantos recursos e tanta potencialidade que não seria conveniente substituí-lo até que apareça sua versão Windows. No momento a solução seria complementá-lo com um pacote gráfico. O resumo de comandos EDA que se entrega aos participantes é uma ferramenta poderosa como referência rápida para a aprendizagem. A lista contempla exemplos para os diversos comandos.

Ao longo dos seminários, em conversas mantidas com os participantes, tem-se evidenciado a dificuldade que muitos encontram em construir tabelas de dados. Obviamente se não se dispõe de uma ou várias tabelas construídas de maneira apropriada visando um problema concreto, não se pode efetuar corretamente nenhuma análise de dados. Isto nos remete ao problema da produção e preparação de dados que, mesmo não sendo objeto de um curso EDA, sugere a realização de conferências ou seminários específicos sobre o tema.

7. REFERÊNCIAS

CRIVISQUI, Eduardo. El análisis exploratorio de las series cronológicas y de las distribuciones de variables observadas a intervalos regulares. METHODOLOGICA, Bruxelles n. 3, p. 1 - 78, 1994.

HOAGLIN, David C., MOSTELLER, F., TUKEY, J. W. Understanding robust and exploratory data analysis. New York. John Wiley, 1983. 445 p.

HOEL, Paul G. Introduction to mathematical statistics. New York. John Wiley, 1971. 341 p

HORBER, Eugène., LADIRAY, Dominique. Apresentação da metodologia de análise de dados Documentação complementar. Seminário Temático "Análise Exploratória de Dados". UFSC, Brasil; ULB, Bélgica. 24 a 28 de novembro de 1997. 91 p.

HORBER, Eugène., LADIRAY, Dominique. Apresentação da metodologia de análise de dados Transparências. Seminário Temático "Análise Exploratória de Dados". UFSC, Brasil; ULB, Bélgica. 24 a 28 de novembro de 1997. 150 p.

HORBER, Eugène., LADIRAY, Dominique. Manual do software EDA. Seminário Temático "Análise Exploratória de Dados". UFSC, Brasil; ULB, Bélgica. 24 a 28 de novembro de 1997. 321p.

MOSTELLER, F., TUKEY, J. W. Data Analysis and Regression A second course in statistics. Reading, MA. Addison-Wesley, 1977. 549 p.

TUKEY, John W. Exploratory Data Analysis. Reading, MA. Addison-Wesley, 1977. 687 p.

VENTSEL, Helena. Théorie des probabilités. Moscou. Editions MIR, 1973. 542 p.